O consolo que Caffarra recebia de Bento XVI

Catequese
O jornalista e escritor italiano Francesco Agnoli fala dos encontros que o Cardeal Carlo Caffarra manteve com Bento XVI durante o Sínodo da Família – quando solicitou uma reunião urgente com o Papa Emérito – e também depois da publicação dos “dubia“.

 

Infovaticana, 17 de setembro de 2017.

[https://infovaticana.com/2017/09/17/consuelo-caffarra-recibia-benedicto-xvi/].

Tradução. Bruno Braga.

(Francesco Agnoli / La Nuova Bussola Quotidiana) [1] – Quem conheceu o Cardeal Carlo Caffarra e gozou de sua companhia e sabedoria sabe que teve um grande privilégio. Recordo que o conheci em 2005. Na mesma tarde fui apresentado ao Cardeal Giacomo Biffi e ao Cardeal Carlo Caffarra; no mesmo e glorioso dia pude conhecer dois gigantes da Igreja, similares na ortodoxia e no amor a Cristo, mas distintos no caráter e no método.

Com Biffi, a quem apreciava muito também pela liberdade com que criticou algumas vezes determinadas decisões ou afirmações sobre a história da Igreja e o ecumenismo de João Paulo II (de quem recebeu aprovação explícita pela profundidade das objeções), falei da história do século XX, de futebol e do Meeting di Rimini. Na verdade, naquele ano fui convidado do encontro que o “Comunhão e Libertação” organiza anualmente e, com Angelo Vescovi, tinha que abordar o referendo sobre a lei 40/2004 e o seu resultado. Biffi era um homem perspicaz, simpático, que sabia fascinar com sua inteligência. Em Bolonha, personalidades do mundo científico, como o geólogo católico Giambattista Vai e homem afastado da fé como Umberto Eco, falaram dele com admiração e simpatia.

Como disse antes, depois de Biffi, conheci Caffarra. Chamou a minha atenção o fato de que, embora o primeiro tenha falado muito, e brincado, particularmente sobre o Inter e a Juventus (ele era “interista” e o sacerdote que me acompanhava era “juventino”), Caffarra, ao contrário, escutava. Com seu rosto bondoso, suas maneiras elegantes, respeitosas e acolhedoras, este gigante da Bioética, a quem João Paulo II escutava mais que todos, que era consultado pelo Cardeal Ratzinger e conhecido no mundo inteiro por seus textos, escutava com suma benevolência meus relatos de jornalista principiante e por hobby. Pensando agora, eu me envergonho, pois, nesse dia, quem deveria escutar, falava; e quem deveria falar estava calado.

Depois desse primeiro encontro, voltei a ver o Cardeal, ou através de amizades em comum, ou porque era um leitor habitual da minha coluna de quinta-feira no Il Foglio, de Giuliano Ferrara. Era uma coluna sem importância que, no entanto, ele apreciava, talvez como obra de um jovem limitado, mas cheio de vontade. Era seu estilo valorizar os outros e colocar-se em segundo plano.

Nos últimos anos, a amizade se estreitou: nos víamos ou falávamos por telefone sobre a Igreja, o Sínodo sobre a Família, a respeito da atualidade… Eu, como muitos outros, fazia-lhe uma avalanche de perguntas para tentar compreender.

Cada uma de suas frases era um tesouro que protegia zelosamente ou que iluminava a obscuridade. Caffarra era um homem totalmente de Deus: não pronunciava uma palavra ou emitia um juízo sem que tivesse sido examinada à luz da fé e da caridade, de uma visão sobrenatural das coisas. Se o juízo era necessário, era sempre para o Bem, para a Verdade, sem sombra de irritação ou de aborrecimento.

Um dia nos confidenciou, a mim e a nosso amigo em comum, Lorenzo Bertocchi, que durante o Sínodo sobre a Família, que acabava de ser concluído, dormia muito mal, que sofria muitíssimo ao ver que havia quem tentava destruir a Familiaris consortio, Veritatis splendor e a Humanae vitae: “Eu gostaria de ter tomado o trem e ido para Bolonha, abandonando o Sínodo”, disse-nos.

Perguntei a ele insistentemente como era possível que na Igreja se discutisse o que não é discutível (a indissolubilidade do matrimônio) e como se chegou ao ponto de existirem Cardeais e Bispos favoráveis ao matrimônio gay. Ele também estava atônito, mas confiava. Porém, “está tranquilo?”, perguntei. “Humanamente, não. Não vejo uma solução para a crise. Do ponto de vista espiritual estou sereno, porque a Igreja é de Cristo e Ele não a abandona”.

Na mesma ocasião, ele nos contou que durante o Sínodo pediu uma reunião urgente com Bento XVI: “O seu secretário me disse que uma reunião imediata era impossível, mas eu insisti. Depois, disse-me que sim, que era possível para o dia seguinte, e pude reunir-me com ele”.

O leitor pode imaginar nossa curiosidade: perguntamos imediatamente a ele o parecer do Pontífice alemão sobre o rumo que estava tomando o Sínodo, sobretudo por parte dos padres sinodais, Kasper em primeiro lugar. Mas Caffarra deteve-se e calou. Sentia um grande pudor, a discrição que é natural aos grandes espíritos. Amava falar em conferências, catequeses, mas mantinha um incrível autocontrole em outras ocasiões. Contudo, seu rosto refletiu o suficiente para dar a entender que o encontro com Bento XVI lhe havia dado a determinação para prosseguir sua batalha contra os inovadores.

Assim, com os “dubia” e com as consequências deles, arranquei-lhe quase que à força uma confirmação: Caffarra continuou vendo Bento XVI também depois dos “dubia”. E, certamente, não foi “reprovado”, mas bem o contrário!

Quando saiu a notícia sobre a audiência negada por Francisco, perguntei a Caffarra como era possível que o Pontífice, que não recusa chamadas telefônicas nem se nega a receber ninguém, não havia recebido, depois de meses, os quatro Cardeais que pediam audiência, também em nome de milhares de sacerdotes e fiéis. A mim parecia uma estranha falta de respeito. Caffarra apenas me lembrou que a Tradição e a Lei da Igreja preveem que os Cardeais “não são apenas personagens que usam meias vermelhas”, mas são chamados por Deus a estarem “ao lado do Papa”: “Por isso, temos agido segundo as leis da Igreja, de acordo com métodos que não fomos nós que inventamos, mas que estavam previstos. Agora resta-nos esperar” […]. Nada mais.

Concluo recordando a nossa enésima conversa pelo telefone, comentando a última entrevista que Scalfari fez com Bergoglio, e a intenção deste de beatificar Blaise Pascal. Como amante que sou do filósofo e matemático francês, comentei com o Cardeal que Pascal havia sido muito crítico com relação ao laxismo de certos jesuítas, criticando o seu afã de estar na corte dos príncipes (“Importa aos reis e aos príncipes merecer um bom juízo de piedade, por isso é necessário que se confessem convosco”, Pensamentos, 924); que havia recordado o valor de Santo Atanásio (Pensamentos 455 e 475), condenado por todos, inclusive pelo Papa Libério, acusado de semear a discórdia e ser presunçoso; e que afirmava que nenhum Papa pode se distanciar da “santa união” com o Evangelho e a Tradição de seus predecessores.

Caffarra certamente conhecia essas passagens e compreendeu que o meu propósito era dizer que, se Francisco elogiava Pascal, muito crítico dos jesuítas e do Papa de seu tempo, não deveria ter se surpreendido com os “dubia”.

Caffarra apenas sorriu, mas estou seguro de que, se pudesse ler este relato, gostaria que concluísse com este pensamento cheio de esperança: “Resulta-nos prazeroso falarmos de um barco (a Igreja) em meio à tempestade, quando estamos seguros de que não naufragará”. É não só o pensamento 859 de Pascal, mas também o do falecido Cardeal Caffarra e o de Bento XVI, por ocasião dos funerais do Cardeal Meisner: “Comoveu-me muito mais perceber que, neste último período de sua vida, ele […] vivia cada vez mais da profunda certeza de que o Senhor não abandona a Sua Igreja, embora às vezes a barca esteja prestes a virar”.

NOTAS.

[1]. Cf. [http://www.lanuovabq.it/it].

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